Whatever ceis want!
June 12th 2009 01:31
Ser bilíngue é uma aventura, trilíngue e multilíngue deve ser ainda melhor.
É comum ouvir os brasileiros que moram há mais tempo na Austrália reclamarem que a partir de um certo ponto o inglês que falamos já não melhora e o português só piora. Inevitavelmente começamos a a inventar palavras misturando as duas línguas, traduzir expressões idiomáticas e criar o famoso Portuinglês.
As primeiras vítimas são os verbos:
Você passa a “bookar” cursos, “spellar” palavras (s-p-e-l-l-a-r), “helpar” amigos, “googar” informações na net. De manhã você “snoozeia” o despertador apertando o botãozinho de “snooze”.
Em seguida mata os falsos cognatos todos:
Nunca mais você requere nada, tudo vira “aplicar”, aplica para o visto de residente, para o documento do carro, para o teste de inglês.
Aclama o seguro... “claim the insurance”?
Realiza o poder que tem... “realise”.
Nunca mais você economiza nada, na Austrália o negócio é “salvar” dinheiro.
No processo assasinamos palavras e sentidos:
Eu, por exemplo, sou uma escritora qualifada... “qualified”
Mas as melhores que usamos são as expressões traduzidas... o sentido se faz entender mas a frase fica um pouquinho estranha. Brasileiros recém chegados costumam rir dos moradores mais antigos quando eles falam coisas que parecem um tanto quanto formais:
“Vou tirar esse problema do caminho (take it out of the way), afinal estou tentando fazer sentido no assunto (make sense of it); não posso acreditar que isso aconteu comigo (I can’t believe)... bom, se ele realmente não pode... muito justo (fair enough).”
Para completar quando alguém te pede perdão você responde na lata:
- Sem preocupações! (No Worries!)
Dias de folga são terminalmente banidos, a partir de agora todo mundo passa a tirar “days off”. Em pouco tempo nos tornamos incapazes de emitir uma única frase pura. O vocabulário fica todo misturado, algumas palavras se tornam parte intrínseca de nosso fraseado diário: “whatever”, “anyway” e “sorry”.
Na minha última viagem ao Brasil devo ter falado “sorry” 435 mil 352 vezes! Você está no ônibus, pisa no pé de alguém e diz:
- Ahhhhh... por favor me desculpe?
Nãããão, muito mais fácil soltar sem pensar:
- Sorry!
Precisa ver como o povo me olhava!
O bom de conversar com outras pessoas na mesma situação é que em todas as frases você usa a primeira palavra, em qualquer língua, que vier à sua cabeça, “you know” ? “One would think it’s normal” (Um pensaria ser normal?).
O sotaque vira uma mistureba só, às vezes pronunciamos algo em inglês, outras em australianês e outras em portuinglês, lendo a palavra inglesa com nosso jeitinho. Um exemplo: “I don’t know”
Em inglês: Ai donnn nou
Australianês: Ai doinnnt noirrr
Nosso jeitinho: Ai dontchi quinou
Foi assim que criamos na última viagem a imbatível frase misturando inglês e a gíria brasileira, ceis = vocês:
- O que vamos fazer hoje?
- Ah! Whatever ceis wantchi!
É comum ouvir os brasileiros que moram há mais tempo na Austrália reclamarem que a partir de um certo ponto o inglês que falamos já não melhora e o português só piora. Inevitavelmente começamos a a inventar palavras misturando as duas línguas, traduzir expressões idiomáticas e criar o famoso Portuinglês.
As primeiras vítimas são os verbos:
Você passa a “bookar” cursos, “spellar” palavras (s-p-e-l-l-a-r), “helpar” amigos, “googar” informações na net. De manhã você “snoozeia” o despertador apertando o botãozinho de “snooze”.
Em seguida mata os falsos cognatos todos:
Nunca mais você requere nada, tudo vira “aplicar”, aplica para o visto de residente, para o documento do carro, para o teste de inglês.
Aclama o seguro... “claim the insurance”?
Realiza o poder que tem... “realise”.
Nunca mais você economiza nada, na Austrália o negócio é “salvar” dinheiro.
No processo assasinamos palavras e sentidos:
Eu, por exemplo, sou uma escritora qualifada... “qualified”
Mas as melhores que usamos são as expressões traduzidas... o sentido se faz entender mas a frase fica um pouquinho estranha. Brasileiros recém chegados costumam rir dos moradores mais antigos quando eles falam coisas que parecem um tanto quanto formais:
“Vou tirar esse problema do caminho (take it out of the way), afinal estou tentando fazer sentido no assunto (make sense of it); não posso acreditar que isso aconteu comigo (I can’t believe)... bom, se ele realmente não pode... muito justo (fair enough).”
Para completar quando alguém te pede perdão você responde na lata:
- Sem preocupações! (No Worries!)
Dias de folga são terminalmente banidos, a partir de agora todo mundo passa a tirar “days off”. Em pouco tempo nos tornamos incapazes de emitir uma única frase pura. O vocabulário fica todo misturado, algumas palavras se tornam parte intrínseca de nosso fraseado diário: “whatever”, “anyway” e “sorry”.
Na minha última viagem ao Brasil devo ter falado “sorry” 435 mil 352 vezes! Você está no ônibus, pisa no pé de alguém e diz:
- Ahhhhh... por favor me desculpe?
Nãããão, muito mais fácil soltar sem pensar:
- Sorry!
Precisa ver como o povo me olhava!
O bom de conversar com outras pessoas na mesma situação é que em todas as frases você usa a primeira palavra, em qualquer língua, que vier à sua cabeça, “you know” ? “One would think it’s normal” (Um pensaria ser normal?).
O sotaque vira uma mistureba só, às vezes pronunciamos algo em inglês, outras em australianês e outras em portuinglês, lendo a palavra inglesa com nosso jeitinho. Um exemplo: “I don’t know”
Em inglês: Ai donnn nou
Australianês: Ai doinnnt noirrr
Nosso jeitinho: Ai dontchi quinou
Foi assim que criamos na última viagem a imbatível frase misturando inglês e a gíria brasileira, ceis = vocês:
- O que vamos fazer hoje?
- Ah! Whatever ceis wantchi!
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