Segredos De Um Pai...
September 8th 2009 04:52
- Vai, bate de novo que acaba saindo! Bate mais forte!
Isso foi o que meu pai ouviu quando chegou na república em São Carlos pela primeira vez, há uns bons bocados de anos atrás. Contornou a casa e foi ao quintal onde achou quatro marmanjos tentando tirar o macarrão de dentro da panela de pressão depois de terem deixado cozinhar por vinte minutos no fogo alto.
Tudo que ele precisou dizer para ser o eterno herói da sua república, evitar os trotes de noviço e ser protegido em toda e qualquer situação foi:
- Eu sei cozinhar.
Sabe mesmo, como um mestre! Eu adoro essa história e a que insirou-o a aprender a arte:
Foi numa das suas primeiras pescarias longe da mãe, anos antes da faculdade. Seguiu com o pai e mais um bando de primos, tios e compadres para a beira do rio. Lá pelas tantas pegou o primo segurando um caldeirão de água fervendo e o tio com um saco de cinco quilos despejando direto o arroz na água e perguntando:
- Quanto é que eu ponho? O saco todo?
Meu pai arregalou os olhos. Nessa época não sabia cozinhar mas de uma coisa ele tinha certeza, do alto dos seus 12 anos de idade:
- Não é assim que minha mãe faz arroz não!!!
Naquele momento nasceu sua decisão de aprender a arte de sobreviver e comer bem em qualquer situação. Na faculdade cozinhou de tudo, sua única regra era: tem que chegar morto e limpo! Ele jamais questionou a procedência das carnes duvidosas, o sumiço de um ou outro gato da vizinhança, não se envolveu em reclamação de roubo de galinhas na cidade nem nada. O único lado negativo é que às vezes era acordado às três da manhã, por um bando de pessoas em condições de sobriedade duvidosas e variadas, para cozinhar.
Aprendi com meu pai quase todos os seus segredos, minha irmã e eu cozinhamos como ele, sem receitas, aproveitando tudo quanto é resto da geladeira, inventando qualquer coisa em quinze minutos, resultado de muitas sextas-feiras sentadas no balcão da cozinha enquanto ele agradava a gente com delícias de restos da semana, croquetes, tortas, petiscos; além de jantares e almoços de final de semana e as maravilhosas comidas nas reuniões de família.
Aprendemos com ele também muitas outras coisas, como o poder do bom senso, curtir a vida, sermos calmas e racionais em qualquer situação. Além disso herdamos dele os melhores anjos da guarda do mundo, pós-graduados na universidade do Céu. Ele é do tipo que quando dois peneus furaram durante uma viagem, passou um borracheiro e parou para nos ajudar; numa outra viagem estávamos numa estrada de terra no meio do mato quando um furinho numa mangueira de combustível fez o carro parar, alguns minutos depois um mecânico veio nos socorrer e descobriu o defeito microscópico consertando tudo em poucos minutos usando um estilete de pesca...
Muitas coisas mais trago dele dentro de mim, segredos de como viver feliz. O que eu nunca descobri, entretanto, foi o que ele aprontou com seus amigos de faculdade. Tem alguma história que ele esconde e deve ser mesmo muito boa. Certa vez quando passou um pouco nas contas das cervejinhas acabou me falando:
- Moleque só faz cagada... tem umas coisas que eu aprontei na faculdade...
Eu bem que tentei tirar dele do que ele estava falando, mas não consegui. Até hoje, toda vez que eu pergunto ele fica vermelho igual um tomate, morre de dar risada e brinca de mudinho. Fica calado, calado. Acho que esse segredo não vou arrancar dele nunca!
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